Por que acontecem tantas lesões na temporada 2026/27 da NBA?
Liga vem sofrendo com vários jogadores contundidos em seus primeiros dias de campanha
A temporada 2026/27 da NBA está apenas começando, mas algo vem chamando muito a atenção: as lesões. Vários jogadores importantes se machucaram logo nos primeiros dias da campanha, enquanto a liga tenta entender os reais motivos de tudo. Hoje, vamos explicar alguns detalhes que podem ter ligação direta. Para isso, conversamos com Gabriel Almeida, profissional da Educação Física e técnico de basquete.
A primeira coisa que temos de mostrar é que o jogo da NBA mudou. Todo mundo já entendeu isso. São mais arremessos de três, mais velocidade, menos tempo de posse de bola. Só por mudar o estilo já faz muita diferença, mas tem um detalhe bem relevante aqui: o corpo do atleta.
Não há dúvidas que os jogadores estão cada vez mais parecidos com maratonistas do que com aqueles corredores de 100 metros rasos, de acordo com Gabriel Almeida. A diferença no corpo é gritante, pois um serve para longas jornadas e o outro é de explosão, de pura força e velocidade.
Mas isso não quer dizer que os “maratonistas” da NBA não vão atingir grandes velocidades, também. Trata-se de uma mudança não só do corpo, mas de seu comportamento, seja em quadra ou não.
O jogo da NBA mudou
Estudos analíticos mostraram que houve uma grande mudança no jogo da NBA e a cada temporada as equipes estão mais próximas da ciência. Nada é por acaso. O que os times fazem antes do início de uma campanha está ligado ao ritmo que a liga impõe.
Primeiro, uma informação básica: vale mais arremessar de três do que de dois, especialmente se o segundo tipo for de média distância. Os números comprovam isso.
Até a rodada de quinta-feira da nova temporada da NBA, 79 jogadores estavam fora ou tinham o status de dúvida para as partidas. De novo: nada é por a caso.
Mas é aquela, né? Quem nasceu antes: o ovo ou a galinha? O jogo está assim por que as lesões aumentaram ou as lesões aumentaram por que o jogo está assim?
Bem, tudo ao mesmo tempo.
Embora muita gente não goste, vale mais arremessar de três, mesmo que a porcentagem seja mais baixa.
Na atual temporada da NBA, 42% dos arremessos que os jogadores tentam são de três, enquanto 58% são de dois. Enquanto isso, os atletas acertam 54.3% de dois e 34.3% do perímetro.
Se você pensar que dez arremessos de dois vão gerar 10,86 pontos, como 10,29 de três valem mais? Tem algo errado, não?
Aí está a diferença, pois o arremesso de dois pontos pode partir de qualquer lugar a partir da linha. Aquele perto da cesta, o índice aumenta muito e gera em torno de 13,4 pontos a cada dez arremessos. No entanto, aquele de média distância despenca para 8,2.
Em suma, quanto mais os times arriscarem de média distância, menor vai ser o aproveitamento. É o que chamam de “arremesso de baixa porcentagem”.
Garrafões abertos, mas nem tanto
Aí, você ainda precisa olhar para as regras da NBA. Isso porque a partir do momento em que a marcação zona foi permitida, o jogo “espaçou”. Você pode trabalhar a defesa de forma que a dupla não é tão punida mais. Vamos dar um exemplo prático aqui.
Shaquille O’Neal era um jogador especial, pois sabia passar a bola, apesar de toda a força. Mas se ele passava, outros pivôs trabalharam isso em seus jogos.
Veja as jogadas dez, nove e cinco, por exemplo. Shaq tem a posse e a marcação, às vezes dupla ou tripla, vai toda em cima dele. “Cercado”, O’Neal encontrava seus colegas livres. Mas isso acontecia porque a NBA só permitia individual. Sempre que vinha uma dupla, alguém ficava “muito livre”.
Aqui, já é com o jogo moderno. Perceba que em dois momentos existe a marcação dupla, mas a cobertura não deixa ninguém ficar livre. Então, são algumas diferenças importantes no basquete que ajudam a explicar os motivos de tudo.
Primeira diferença está na regra
Enquanto a NBA obrigava a marcar de forma individual, havia muito menos movimentação defensiva. Por isso, jogadores eram mais fortes para o embate um contra um, para que o “atacante” não levasse vantagem sobre o defensor.
A marcação individual era muito mais “travada”, havia um jogador em cada canto da quadra para marcar os arremessadores de três, o pivô ficava perto da cesta contra o “cara grande adversário”, enquanto o ala-pivô trabalhava com o armador para as trocas de marcação. Quando um dos jogadores do perímetro saíam para a ajuda no garrafão, abria um “clarão” no canto da quadra. Se o pivô soubesse passar, a defesa era punida com um arremesso de alguém totalmente livre ali.
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Foi assim que O’Neal trabalhou muito com Derek Fischer no Los Angeles Lakers. Toda vez que alguém tentava uma dupla ou tripla nele, apareciam espaços. E como Shaq sabia passar, o resultado era quase sempre o mesmo.
Mas no basquete atual, a cobertura defensiva fecha espaços. Quase sempre tem alguém para marcar um jogador. E é aí que tudo muda.
Defesa desgasta mais o jogador atual da NBA
Não só na NBA, mas no basquete FIBA em geral é assim. O jogador, com tantas corridas para as coberturas, como no exemplo do segundo vídeo, tem um desgaste enorme. A não ser que o ataque venha em ISO (atleta com a bola isola o lance, individualizando e, no máximo, trabalhando com um pick and roll), a defesa está trabalhando o tempo todo em conjunto. Na ISO, os espaçamentos seguem, mas os defensores são menos exigidos.
A partir daí, veja a diferença entre os defensores do vídeo um para o dois, o quanto eles correm a mais no segundo. Tudo isso exige muito do corpo, especialmente da panturrilha.
“A panturrilha é usada para tudo. É muito salto, muito tiro de curta distância, especialmente na ação defensiva. Mas ainda tem um detalhe, já que é indicado que o jogador fique na ponta do pé para ter um tempo de reação mais rápido. Então, tem uma sobrecarga sistêmica”, disse Almeida.
No ataque, existe muito mais troca de passes, enquanto todo mundo que está em quadra precisa saber fazer isso. Não é mais tudo na conta do armador. Por isso, você vê muitas assistências de um ala, de um ala-armador, às vezes mais do que o próprio chamado organizador primário. Todos precisam saber “rodar” a bola.
Mudança no corpo vem por conta da soma das regras e das análises
De acordo com Gabriel Almeida, o jogador da NBA ficou mais magro de propósito para suportar uma temporada sem tanta carga na musculação. Hoje, os atletas fazem quase que uma fisioterapia ao invés de pegarem muito peso.
Isso mostra a transformação no corpo de um jogador. Veja, por exemplo, como era um ala-pivô.

Aqui, Karl Malone, um dos melhores jogadores da NBA nos anos 90, exibe seus músculos. Até como forma de intimidação, os oponentes sabiam que era muito mais difícil marcar um atleta assim. No entanto, Malone jogava perto da cesta, após pick and roll com John Stockton, ou arremessando de média distância.
Lembra que o de média distância tem um baixo aproveitamento? Então, esse tipo de jogador passou a ficar cada vez mais raro na liga. Não é tanto mais na força, mas na velocidade. O tempo de reação defensivo e ofensivo tem a ver com isso.
Agora, um ala-pivô atual.

A diferença é brutal. Jalen Johnson (foto) é apenas um exemplo aqui, mas vários outros jogadores da posição possuem o corpo similar ao dele. Por isso, vai ser menos efetivo? De forma alguma. O jogo atual pede isso. Em média, o atleta ficou pouco mais de três quilos mais magro do que há 15 anos.
Isso, em um “universo” maior de jogadores. Enquanto Malone pesava 113 quilos, Johnson pesa 99.
Mas o que explicam tantas lesões na temporada 2026/27 da NBA?
Como as regras mudaram, os estudos analíticos mostraram que o arremesso de três vale mais do que o de dois (sem contar o óbvio), as coberturas aumentaram. Tudo tem a ver. As cargas estão diferentes.
As lesões de jogadores na temporada 2026/27 da NBA passam, também, por todas as mudanças. Afinal, o jogo ficou mais rápido, com mais posses e menos força.
“Pelas demandas do jogo de hoje, se disputa muito mais posse, com mais transição. O corpo mais leve ajuda nisso, pois a quantidade de massa que um maratonista precisa para correr longas distâncias é bem diferente de um corredor de fundo. Se o ritmo de jogo está bem mais rápido, com aceleração e desaceleração, mas a quantidade de jogos não diminui, os tendões não suportam. O músculo recupera mais rápido que um tendão. Por isso que o load management tem de ser bem feito. É quase impossível um jogador atuar nos 82 jogos sem ter descanso”, disse Gabriel Almeida.
Ele explica que o tempo de descanso é fundamental para um jogador evitar lesões.
“Na NBA, são 48 minutos. Então, por jogo, eles jogam quase um quarto a mais do que no basquete FIBA. Some isso ao ritmo bem mais acelerado, pouco tempo de descanso, quantidade de jogos, de viagens, levam a uma sobrecarga muscular que o corpo não suporta”, afirmou.
Horas de sono e decanso
Com tantas viagens, especialmente quando times da NBA começam uma sequência de partidas fora de casa, jogadores sentem muito a parte física. De acordo com Gabriel Almeida, é algo que aumenta a carga muscular e atletas caem fisicamente.
“O descanso está muito atrelado a tudo isso, pois o atleta dorme mal. Um jogador que vai para uma sequência de sete jogos em dez, 11 dias fora de casa, o estresse metabólico atrapalha o atleta. Daí, em menos de 24 horas ele tem um jogo. Depois, volta à quadra 48 horas em outra cidade. Não dá tempo de recuperar”, disse Gabriel.
Segundo ele, as lesões que estão acontecendo na temporada 2026/27 da NBA só estão começando.
“Veja que uma coisa leva a outra. Com a sequência de jogos, as contusões vão seguir aumentando. Hoje, os times fazem um trabalho de reparação física, mesmo depois das partidas. Sempre algo leve para que eles não percam tônus muscular, é um trabalho mais voltado para a prevenção”, afirmou.
Acima, a rotina de treinos do duas vezes MVP Shai Gilgeous-Alexander. Note que a carga é diferente de um atleta que busca hipertrofia muscular. Assim, o astro do Oklahoma City Thunder consegue minimizar os desgastes de uma temporada da NBA e ser ainda mais efetivo nos dois lados da quadra.
Ruptura no tendão de Aquiles virou “rotina”
Nos playoffs de 2024/25, por exemplo, três jogadores romperam o tendão de Aquiles: Damian Lillard, Jayson Tatum e Tyrese Haliburton. Destes, apenas o astro do Boston Celtics voltou em 2025/26. Enquanto isso, Haliburton e Lillard retornaram na atual campanha.
Assim como Tatum se machucou e perdeu o sétimo jogo da série de playoffs contra o Philadelphia 76ers, Haliburton teve lesão na outra perna. Apesar de parecer não ter relação alguma, trata-se de uma compensação.
Tatum e Haliburton começaram a forçar mais a outra perna, mas o problema de ambos é apenas muscular. Não é nada grave.
Só na pré-temporada, que ainda foi mais curta que em outros anos, outros três jogadores tiveram a ruptura no tendão de Aquiles: Ariel Hukporti (Philadelphia 76ers), Ben Simmons (Sacramento Kings) e Otega Oweh (Oklahoma City Thunder).
Ou seja, as lesões graves começaram antes mesmo do início da temporada 2026/27 da NBA.
Soluções?
Bem, vamos entender que a NBA é uma liga de basquete, mas é comercial. De acordo com levantamento do site Sportico, a liga teve uma receita de US$14.5 bilhões na última temporada. Só no novo acordo da TV, os times vão receber cerca de US$143 milhões anuais (até o fim do contrato) cada.
Então, não é algo tão simples mexer em contratos, já que a TV pagou por um número de jogos. Nisso, ainda existem as partidas de transmissão local.
A ideia de 82 jogos existe há décadas, enquanto tem o fato da tradição. Há cerca de 60 anos, a NBA tem o mesmo número de partidas. E é óbvio que o jogo mudou, mas como fazer se a liga não vai ajustar?
Por enquanto, a NBA sustenta o argumento de que não existe relação entre dias de descanso e lesões, como na temporada 2026/27. O comissário Adam Silver cravou que um estudo independente comprova tudo. OK, né?
A liga mudou a premiação e exige que os jogadores façam 65 partidas. Anthony Edwards, por exemplo, machucou o joelho e vai perder a chance de assinar a extensão supermax, que poderia pagar a ele até US$304 milhões por quatro anos. Então, não é só o Minnesota Timberwolves que vai sofrer com sua ausência. O atleta vai perder dinheiro.
Mas, diante de tantos sinais claros, o que vai valer mais, no fim das contas?
Estender a temporada? A NBPA (Associação de Jogadores da NBA) vai aceitar diminuir as férias?