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Quando o personagem supera o jogador na NBA

Personalidade forte é a marca de vários atletas da liga, mas existe um limite

personagem jogador NBA
Reprodução / X

A NBA convive com jogador usando um personagem para vários fins. Seja ele de promoção ou apenas por uma personalidade forte, a liga tenta lidar com tudo sem atrapalhar o bom convívio. E é até legal que tenha atleta assim, pois ele consegue trazer um ingretiente extra a um jogo que, por vezes, não tem nada ali.

Mas o personagem precisa entender o limite. Vamos citar alguns exemplos antigos até chegarmos nos atuais.

Dennis Rodman, por exemplo, era um jogador que tinha problemas emocionais. No livro Bad as I Wanna Be, ele relata tudo o que aconteceu desde a separação de seus pais, infância conturbada à sombra de suas irmãs de sucesso no basquete universitário, até quando “adotou” uma nova família. Rodman estava “preso” no corpo de alguém que queria sair dali, mas aquilo era nos anos 80, 90.

A informação sobre saúde mental era bem menor há três ou quatro décadas, então ele era visto apenas como um “esquisito”, que não se enturmava e tinha problemas de convivência. E sempre tem um assim no colégio, no trabalho, no seu prédio. A diferença é que a gente começa a entender um pouco mais nos dias atuais.

Então, Rodman tem um episódio do lado de fora do ginásio do Detroit Pistons, ouvindo Pearl Jam, enquanto dormia com um rifle ao seu lado. Ele criou um personagem ali que mudou sua carreira.

O personagem na NBA entra quando o jogador sai?

Um detalhe muito importante é que Rodman era um dos melhores defensores da liga quando o personagem apareceu. E ele venceu o prêmio duas vezes consecutivas antes de virar um dos reboteiros mais icônicos que a NBA já viu. Veja o que é a mudança de comportamento, em quadra ou não.

Mas aquilo era “demais” para o Pistons lidar com todas as mudanças que a franquia passava e o trocou para o San Antonio Spurs, onde seguiu sendo visto como “um cara estranho”. Só no Chicago Bulls ele teve a chance de ser quem e como queria. Ainda assim, com Jack Haley de babá. Não conseguiu fazer sua despedida da liga como queria, entretanto. Após problemas no Los Angeles Lakers e Dallas Mavericks, não pisou mais nas quadras da NBA.

As discussões com adversários, provocações, tudo era planejado para desestabilizar o oponente. No entanto, um episódio contra o Minnesota Timberwolves foi quando ele passou dos limites. Rodman, ao cair no chão, chutou um cinegrafista. De graça. Foi suspenso e multado.

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Não estamos falando daquela frase chata de “qual é o limite do humor”, mas do personagem. Até onde ele pode ir sem ser, de fato, um problema para o time e a NBA. Porque a partir do momento em que Rodman virou apenas uma distração, ele jamais conseguiu atuar na liga.

Nos últimos anos, alguns nomes surgiram em meio a um período em que ninguém fala o que realmente pensa. É tudo treinado, programado. O jogador precisa dizer que “deu 110%, seus colegas foram ótimos e o adversário era difícil”. Entrevistas assim, a gente já se cansou. Ninguém quer entrevistar um robô que repete frases feitas em nome de uma visão de elite.

Velhos e novos provocadores

Ele tem de ser um bom moço para conquistar marcas, chamar a torcida e receber prêmios por comportamento, nem tanto pelo que faz em quadra. E é por isso que caras como Draymond Green, Dillon Brooks e Yaxel Lendeborg incomodam.

Não só por suas personalidades fortes, mas como vão agir em quadra, nas entrevistas. Com eles, tudo é imprevisível, mas é preciso entender onde está o limite do personagem e o que o jogador da NBA está fazendo de fato.

Dillon Brooks, por exemplo, é odiado por todos os adversários. No entanto, é um dos caras mais calmos e amigos dentro do vestiário. Aquele provocador é, de fato, um personagem.

Green tem até um podcast para se expressar mais livremente. Muito inteligente fora das quadras, ele oscila em seu papel dentro delas. Isso porque o mesmo cara que prega a inteligência e o esforço, é o que adora bater em jogador estrangeiro. Pode perceber o padrão: Rudy Gobert, Jusuf Nurkic, Domantas Sabonis (nasceu nos EUA, mas é lituano), Khaman Maluach e Steven Adams são todos de fora dos EUA.

Claro que ele também briga com Jordan Poole e causa sua troca, que discute com LeBron James (e depois vira um de seus melhores amigos), mas existe um padrão. Embora Green não diga, tem algo ali.

Yaxel Lendeborg

O ala do Golden State Warriors é um “novato velho”. Isso porque chegou à NBA aos 24 anos, uma idade considerada bem avançada para a liga atual. Se pensar que Cooper Flagg ainda não completou 20 anos e já está em sua segunda campanha, tem uma boa diferença ali.

E logo em seu primeiro jogo, Yaxel Lendeborg provocou Luka Doncic. Para quem acompanha o basquete mais de perto sabe que o esloveno xinga o tempo todo. De acordo com Gui Santos, ele aprendeu a xingar em português só para usar isso contra ele em quada.

O Los Angeles Lakers venceu uma e perdeu outra para o Warriors. Enquanto o primeiro tinha a expectativa por conta do início da temporada, o segundo já virou suas atenções aos dois. Tudo era sobre Lendeborg e Doncic, o que não acabou tão bem para o calouro.

Mas o que todo mundo vem pedindo ao novato é que ele não mude seu comportamento, especialmente em entrevistas. O estilo falastrão é bom, só não pode ultrapassar os limites, como fez John Rocker, ex-jogador da MLB, ao detonar as pessoas de Nova York.

Gratuito e causador de lesões (ou quase isso)

Assim como Rodman não devia chutar o câmera, Brooks não poderia, em momento algum, tentar machucar Damian Lillard. Foi um momento patético de um personagem ultrapassando o que ele é como jogador da NBA.

Lillard teve lesão grave no tendão de Aquiles, o que o fez perder uma temporada inteira. Então, no último jogo entre Phoenix Suns e Portland Trail Blazers, o ala tentou chutar a perna do armador.

Qual é o ganho real disso? Qual é o motivo?

Isso é só estupidez.

Green não devia dar uma gravata em Rudy Gobert, chutar a virilha de Steven Adams ou pisar no peito de Domantas Sabonis. São atitudes assim que deixam a dúvida se o personagem está fazendo bem para o jogador.

Ego de jogador da NBA ultrapassa personagem

O ego, por si só, é terrível. No entanto, todo mundo sabe que vários jogadores são frágeis quando esse é o assunto.

Kevin Durant, por exemplo, não pode ser questionado em uma entrevista que ele já causa desconforto em todo mundo. Ao falar sobre sua pontuação contra o Boston Celtics, o astro detonou o jornalista. E a pergunta era justa, pois o cestinha não vem sendo tão exigido do Houston Rockets em 2026/27 como foi na campanha anterior.

Era mais para elogiar o atual grupo do Rockets e ele dar uma opinião sobre tal evolução. Não só não o fez, como colocou Jabari Smith Jr em situação delicada ao citar a pontuação do colega em outro jogo.

Claro que Durant tem um personagem ali e ele não quer sair de sua “zona de conforto” para controlar narrativas. Mas, ao mesmo tempo, o ego fala mais alto e acaba se atrapalhando.

Defensores, em geral, gostam disso

É bem normal um especialista em defesa usar o artifício do personagem para intimidar adversários. Seja pelo que ele fala com como age em quadra, quer passar uma mensagem. E dá para entender, pois muitos jogadores acabam sentindo.

Eles “vendem” ingresso, camisa, mas deixam a impressão de que podem explodir a qualquer momento. O mesmo jogador que você vai aplaudir em uma partida é aquele que você vai reclamar por deixar o time “na mão” em outra.

É legal, mas tem um custo.

Gustavo Freitas

Antes: Jumper Brasil. Co-fundador do site Hoops Brasil, acompanha NBA desde 1989. De Uberaba-MG.

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